Quinta-feira, Abril 30, 2009

repolho



Deeogow, meu companheiro de paixões e brigas, muitas, acaba de me mandar um trechinho de Leite derramado, livro novo do Chico Buarque.

[...] com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve logo ser oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa da sua feiúra. Sabendo-se desprezível, apresenta-se com nomes supostos, e como exemplo cito minha pobre avó, que conhecia o seu ciúme como reumatismo.


Sábado, Abril 25, 2009

O que eu achei de Zii e Zie: uma crítica mais egoísta do que impressionista


Eu já ouvi Zii e Zie o bastante para comentar. A primeira vez foi uma boa surpresa – eu esperava uma decepção. Por motivos pessoais dos quais o Caetano não tem culpa nenhuma: ciúme de uns momentos do show que eu queria que ficassem em junho de 2008. E me confortava pensar que seria uma decepção ouvir e sentir aquilo tudo de novo. Os shows do Obra em Progresso (e eu fui a uns três) já tinham fechado o ciclo, eu podia ficar só com a lembrança. Enfim. Lembro que não gostava de algumas coisas, e de outras muito, e assim é meu estranho amor pelas caetanices. De umas coisas eu gosto muito, é mais eu do eu suporto, e de outras não gosto nem de lembrar. Nada da sua obra me é indiferente. Caetano e David Bowie, eu queria chamar os dois para tomar café da manhã no meu jardim imaginário e conversar horas como se fôssemos eternos. Conversar até acordar no dia seguinte sem saber exatamente como aconteceu. “Caetano, tira a orquídea do sol, por favor, e acorda o Bowie, enquanto eu coloco a água para ferver”.

Mas Zii e Zie: primeiro foi a surpresa boa. Depois eu comecei a pular algumas músicas, e a repetir outras, muitas vezes. Estou curiosa para ver as de Transa no meio dessas no novo show. Aliás, é um disco que deve ser visto. No geral, no entanto, senti pouca novidade. Tem que ter novidade sempre? Acho que sim. ((Estou falando do produto, das músicas sobre o Rio, porque a concepção do álbum, um ensaio aberto num blog, é cheio de generosidade e originalidade)). Nem vou ousar comparar “Zii e Zie” com “Cê” porque não gosto do sentimento de ter que comparar. Não tem que ser melhor, ou pior, são dois discos, duas coisas, duas festas diferentes, um é carnaval o outro aniversário, duas margens com uma ponte novinha no meio: Caetano, sempre mais um pouco.

“Perdeu”: acho que a música mais forte do disco. Um prenúncio do clima de transe que tem todo o show, esse transe sobre a narrativa que atinge o auge com “Incompatibilidade de gênios”. Me agrada muito que ela seja a primeira música e que não termine nunca. Um golpe realista: “O sol se pôs, nasceu, e nada aconteceu”. Ah.

“Sem cais”: linda, linda, a imagem dos versos “seu sorriso bateu aqui, inda posso me apaixonar [...] mar imenso sem cais, tô com medo de ver/ que inda posso ir bem mais” me fazem lembrar o Javier Bardem delirando, no fime ‘Mar adentro”: “Mar adentro, mar adentro/y en la engravedad del fondo/donde se cumplen los sueños/se juntan dos voluntades/para cumplir un deseo/tu mirada y mi mirada/como un eco, repitiendo sin palabras:/más adentro, más adentro”

“Por quem?” segue o que sobrou de força da primeira e leveza da segunda, acho. Ela canta sorrindo? Parece, quando ouço tenho a sensação de que ele canta sorrindo. Mas me dá uma vontadezinha de chorar, e um pouco de agonia.

“Lobão tem razão” é uma boa manchete, mas não uma boa música. Apesar de eu gostar muito da imagem de “o homem é o próprio Lobão do homem/ela só vem quando os mortos somem”.

“A cor amarela” é uma bala de coco. O refúgio baiano nesta crônica carioca que é o disco todo.

“Base de Guantánamo”: acho incrível ter uma música já velha no disco. Ele criticava a Base com um monte de golpes de ritmo (as mesmas armas de "Haiti") antes do Obama ganhar e fechá-la. Obama rocks e Caetano escreve!

“Falso Leblon”: me constrange profundamente, não gosto e pulo. Deve ser implicância por localizar o Rio no Leblon, neste Leblon que é o Rio todo, soa tiozão e superficial. E ainda tem uma rima de “cocaína” com “menina” que o Reginaldo Rossi já cansou há alguns verões.

“Incompatibilidade de gênios”. Delícia. Parece uma resposta aos falsos “odeios” de “Falso Leblon”, porque te coloca de volta no transe. Tem uma psicodelia sobre o que não é samba ainda, mas uma gênese do samba. São tantas camadas sobre a narrativa de Aldir Blanc e João Bosco, em ton-sûr-ton, a raiva vai crescendo com as novas cores da música, não? Minha preferida, disparado.

Aí uma implicância: eu queria saber por que "Tarado ni você" vem depois de "Incompatibilidade...." Não pela contradição temática, mas porque divide o disco em dois. Tira um pé do disco, dá um susto e desmaia, sei lá como explicar. Eu não gosto, não encontro a poesia que ela promete, seu experimentalismo não me faz feliz.

“Menina da Ria”, passo. Pelo meu estado emocional “abroad”, ela não me comove nem me irrita, eu só não quero ouvir nada que tenha este sentimento de exílio ou saudação do estrangeiro agora.

“Ingenuidade”, outra flor, um sambinha doído, como deve ser a tristeza que balança.

“Lapa”: acho que sofre da mesma doença de “Falso Leblon”, mas é mais carinhosa. “Quem projetaria essa elegância solta?”, diz a letra, e eu gosto, senão a Lapa? Quem projetaria essa identificação pela nostalgia, senão Caetano? A Lapa personificada pelo casal ‘Lula e FH’ me parece romantizada. Como a lista de adjetivos e lugares...

“Diferentemente”: Caetano e seus intertextos para quem quiser entrar. Eu gosto muito da música, mais até do que da letra, e acho que encerra bem: “Eu não acredito em Deus”, o último verso do disco, acabou, ponto.

Sexta-feira, Abril 24, 2009

o para agarrarse acaso

Es el pecho de otra persona lo que nos respalda, sólo nos sentimos respaldados de veras cuando hay alguien detrás, lo indica la propia palabra, a nuestras espaldas, como en inglés también, to back, alguien a quien acaso no vemos y que nos cubre la espalda con su pecho que está a punto de rozarnos y acaba siempre rozándonos, y a veces, incluso, ese alguien nos pone una mano en el hombro con la que nos apacigua y también nos sujeta. Así duermen o creen que duermen la mayoría de los matrimonios y de las parejas, los dos se vuelven hacia el mismo lado cuando se despiden, de manera que uno le da al otro la espalda a lo largo de la noche entera y se sabe respaldado por él o ella, por ese otro, y en medio de la noche, al despertar sobresaltado por una pesadilla o ser incapaz de conciliar el sueño, al padecer una fiebre o creerse solo y abandonado a oscuras, no tiene más que darse vuelta y ver entonces, de frente, el rostro del que le protege, que se dejará besar lo que en el rostro es besable (nariz, ojos y boca; mentón, frente y mejillas, es todo el rostro) o quizá, medio dormido, le pondrá una mano en el hombro para apaciguarle, o para sujetarle, o para agarrarse acaso.

Corazón tan blanco, Javier Marías, página 48.

Sexta-feira, Abril 17, 2009

Borough Market




Dica da Branca, Clara e Cláudia Amorim: perca qualquer coisa, menos o Borough Market! E fui, com fome, muita fome, como me orientou a Branca... Fui numa quinta-feira, nem era o dia oficial, sábado, mesmo assim, foi das melhores experiências gastronômicas da vida. Eu não conseguia escolher o que comer, apesar da fome... provei todos os queijos, azeites, tortas e geléias, e bolos, e pães, ai (tudo de graça, os vendedores te empanturram mesmo, impossível não comprar nada depois). Mas para sentar e comer, de verdade, escolhi essa sopa de frutos do mar, de uma barraca da Thailândia. Assisti a todo o processo, eles limpando o peixe, temperando, cozinhando... queimei as mãos, a língua, mas valeu a pena. Encerrei com um queijo "do tamanho de um abraço", como me seduziu o vendedor, chamado Marechal. O queijo.

Quinta-feira, Abril 16, 2009

Homero, Bowie & Batman

"En realidad, todas las historias arrancan de una historia, todos los libros nacen de un libro, bueno, de dos, en uno se relata una gran batalla entre Oriente y Occidente por el amor de una mujer y en otro se habla de un hombre que se pierde al regresar a casa. "Canta, o diosa, la cólera de Aquiles", comienza la Iliada. "Cuéntame musa las aventuras de aquel varón de tan variado ingenio", arranca la Odisea. Los dos tienen un punto en común: el héroe, esa figura dotada de superpoderes que a lo largo de los siglos ha llegado hasta nosotros con diferentes formas y colores, pero con un mismo fondo. Como dice la vieja canción de David Bowie, "podemos ser héroes, sólo por un día". Desde Homero hasta los Watchmen, desde Ulises hasta El caballero oscuro, ya sea en forma de tebeos, películas o series de televisión, los superhéroes son una inagotable fuente de fascinación y un negocio global más que rentable."
...

Um bom lide é um belo começo. Uma reportagem sobre a eterna necessidade dos heróis, no El Pais, aqui.

Terça-feira, Abril 14, 2009

O primeiro mico de Londres

Pô, eu nunca faço foto turistona, vai! Posso fazer só essa? Peguei o metrô e fui caçar a Abbey Road. Comprei uma cervejinha e escondi no casaco, que aqui na terra da rainha não pode ficar bebendo na rua não. Mas tinha que tomar uma sentada na Abbey Road, né? Viajando ali na frente dos estúdios da Apple, aqueles casarões lindos, ... Achei uma doida russa que teve a mesma idéia que eu (originalíssima!) e pronto: eu tirei foto dela, ela tirou a minha. Na primeira tentativa, do lado certo, quase fui atropelada. Eu e a russa, porque para enquadrar direitinho a menina tinha que ficar parada no meio do trânsito :)


Na segunda tentativa, do lado errado, e sem Ringo, Paul e John (eu sou o George!), a foto ficou mais bonitinha...

Domingo, Abril 12, 2009

Um domingo tipicamente carioca


O domingo acorda com sol na doce Canet, café da manhã na varanda, pain au chocolat, iogurtes, baguettes e queijos deliciosos, comme il faut. Nosso sorrisão aí na foto ainda nem desconfiava que teríamos um domingo tipicamente carioca pela frente: praia e delegacia. Depois desse café delícia (legenda: Lia, Vivian e Guilherme), alugamos quatro bicicletas para passear nas cidades vizinhas. Trancamos no bicicletário em frente ao prédio e deixamos lá, afinal, estamos na França, não? Quem iria roubar quatro bicicletas com cadeado? Pois bem, caímos na primeira farsinha da Europa. Roubaram nossas bicicletas e passamos a tarde tentando explicar aos policiais que não, não éramos nós os ladrões! Procuramos o seguro social, a proteção ao imigrante, ligamos para todos os 0800 das milhares de carteirinhas que nos dão por aqui, guardamos o cadeado quebrado, tentamos convencer o moço da lojinha que somos pobres estudantes de um país em desenvolvimento... nada funcionou. E tivemos que pagar 550 euros, o preço das quatro vélos.

Terça-feira, Abril 07, 2009

Canet, França


Eu vou escrever sobre Londres. Mas não agora. Passei cinco dias por lá, durante o G20 - eu estava em Londres quando o Obama deu um Ipod para a rainha, histórico! - e amei demais a cidade para escrever assim, sem pensar. Vim para Canet na sexta-feira, aqui perto da fronteira entre a França e a Espanha, e amanhã vou para Barcelona, mas Canet sim merece um post. Estou num apartamento de amigos muito queridos do Rio, Lia e Guilherme, de uma janela vê-se os Pirineus e de outra o marzão Mediterrâneo. Cheguei aqui com 24 graus, camisetinha dans la plage... Mas eu não vim para Canet, na verdade. Eu entrei num episódio do Armação Ilimitada. A qualquer momento a Zelda Scott vai sair de trás de um dos coqueiros artificiais da praia, tenho certeza. Canet parece Saquarema com a tecla SAP no francês, em 1987: banana boat, sorveteria chamada "Koko Loko", feirinha hippie, letreiro em neon, bar tocando Madonna (na foto, o bar "Kbana" com dois animadores vestidos de vaca e black power. Um luxo).