Sábado, Março 28, 2009

Fish and chips


Passamos o sábado em Anstruther, vilarejo a 30 minutos daqui de Saint Andrews, famoso pelos campos de golfe e pelo "melhor" fish and chips do UK. Um casal de amigos mora lá, num apartamento com três quartos, lareira, carpete fofinho, todo mobiliado, janela que dá para sentar (adoro), isso tudo pelo mesmo preço que eu pago num quarto numa casa com seis meninas. Tem lugares muito baratos na Europa, como Santiago de Compostela, Berlim Oriental, ou Anstruther, onde dá para achar um apê desses por 300 euros. Voltando ao fish-and-chips, triste do país em que o prato típico é peixe com batata frita... Mas o haddock é uma delícia. Crocante, com molho de mel e coleslaw, pimenta fresca, vinho branco. A graça é pedir para viagem, dois pounds mais barato, levar para a costa e comer olhando o horizonte :)



Sexta-feira, Março 27, 2009

twitter/quebeleza


Entrei no twitter: "twitter.com/quebeleza". Até então eu não via utilidade e tinha medo de perder mais tempo ainda do que já perco com Gchat, Orkut (que agora só me serve para baixar música), Facebook (bobo, bobo, mas por aqui todo mundo fala por ele) e LastFm (disparado o mais inteligente e útil). Resolvi entrar porque li em algum lugar que as atualizações do Rainn Wilson eram tão engraçadas quanto o personagem dele, o Dwight Schrute, em "The Office" (não parece um pouco o Marechal?). Como eu não tenho TV no alojamento, minha distração para os textos-cabeção é fazer download das séries. Depois de "In Treatment" (que merece um post exclusivo) tô viciada em "The Office" (aqui). Quem já trabalhou em firma, com todas aquelas coisas de festa de Natal, e-mail corporativo, chefe metido a engraçadão, colegas excêntricos e "downsizing" (que pode ser traduzido para passaralho) sabe que material não falta para o roteiro. E Dwight Schrute é o personagem puxa-saco, que mora numa fazenda de plantação de beterrabas, viciado em Star Trek e Senhor dos Anéis. Ele faz aula de karatê com crianças de 8 anos, tem um avatar que voa no Second Life e namora escondido outra figura do office, a Angela, evangélica e vegetariana, ela coleciona aqueles pôsteres de bichinho e bebês estilo Anne Guedes e compra roupa na seção de crianças da Gap. É muito engraçado.

Já descobri várias coisas sobre o ser humano no Twitter: que a Scarlett Johansson "follows" o Dalai Lama e que o Marcelo Camelo escreve coisas como "uma gota d'água tem a mesma solenidade que uma cachoeira". E o Rainn Wilson é melhor como Dwight, mesmo. A parte útil, acho, é seguir as revistas e blogs mais legais, assim você seleciona o que vai ler. Pelo que eu já vi até agora, o querido Paulo Roberto Pires (Ufrj/Bravo/fantasia-de-pierrô-no-carnaval/Ediouro) é quem faz melhor uso da coisa...

Quinta-feira, Março 26, 2009

london calling

A minha Saint Andrews é tão católica que tem 15 dias de folga para a Páscoa. Consegui umas passagens em promoção, destas que você não pode nem fazer check in no aeroporto, nem levar mala, nada, e vou passar as duas semanas em London London, na casa de Carol Abe, amiga da época do Estadão, e depois Perpignan (lá onde a França divide a Catalunha com a Espanha, no Mar Mediterrâneo), nas casa do Guilherme e Lia, Marcelle e Arruda. É minha primeira vez em Londres, e claro, estou muito excitada. Fiz um roteiro detalhado para os cinco dias, colhendo as dicas dos amigos que já moraram lá... (eu já sei que não vou fazer nem metade, mas fica a lista de endereços publicada para o caso de eu me esquecer no meio da Portobello Road):

Segunda: Passear por Southbank com David Bowie + Tate ou, se o sol for amigo, Hyde Park + Saint James Park

Terça: Almoçar no Borough Market (Branca, tô confiando que funciona terça, hein??) + tomar umas cervejas e ir bebinha para o British Music Experience, no O2 (já tenho ingresso!!) + Candem Town, à noite

Quarta: Segunda chance para a Tate ;) + Forbidden Planet (hum) + "Old Bloomsbury London Walk" (neeeeeerd)

Quinta: Magical Mistery Tour Walk + Notting Hill + Eletric Cinema

Sexta: treinar o francês no avião para chegar tinindo em Perpignan :)

Segunda-feira, Março 23, 2009

Tudo sobre "huevos"


Foi só um domingo triste, mas passou, passou.

Segunda-feira de manhã é dia de ver filme para discutir na aula da tarde...e o de hoje, "Jamón, jamón" faz parte de uma trilogia do diretor espanhol Bigas Luna sobre... testículos. Ou "huevos", como ele chama, mais bonitinho. E faz muito mais sentido do que parece: depois que o Franco morreu, fim da ditadura e censura, blá blá, houve uma onda de erotização nos filmes espanhóis absurda, exagerada, Freud total. Algo como nossa pornochanchada no fim dos 70. E a temática "cojones" é bem típica da "sociologia da tourada", dos espanhóis, se é que eu posso dizer isso. O macho nacionalista dos 70/80, aquele que tem "cojones como el toro". O exagero de se falar e mostrar "huevos" no cinema, portanto, acaba funcionando como alegoria ao chauvinismo franquista (!!!). Neste filme, "Jamón, Jamón", o primeiro da Penelope Cruz e do Javier Bardem, a primeira cena é um close do "huevo" do Javier, e tudo mais, assim, às 11h. E sim, para equilibrar, todos os peitinhos da Penelope também, ainda de cabelos crespos ao vento, uma Sonia Braga com sotaque. Eu não sei ainda o que achei do filme, mas recomendo nem que seja pelo estranhamento, é alguma coisa entre o "horny" e o "disgusting" (tem uma cena do Javier colocando um supositório num porco...argh) Enfim. Em outro filme desta trilogia, "La teta y la luna", o diretor coloca um menino de 10 anos mamando na mãe, e isso tudo, claro, constrói uma "identidade européia"!

Domingo, Março 22, 2009

Bom dia, tristeza

A Jade morreu. A ex-Big Brother inglesa, da minha idade, que descobriu que tinha um câncer no meio do programa em agosto. Desde então, é a principal novela britânica, não tem chilique da Winehouse que tire a Jade das capas do The Sun. No último mês de vida, ela casou, deu festas de despedida, cartas para os filhos, um dramalhão alive. E hoje ela morre, alive, salve o paradoxo, e mais um: no Dia das Mães. Não bastasse o show do Radiohead que eu tive que ver no Youtube. Bonjour, tristesse.

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O Caetano contou hoje que vai lançar o disco novo (Zie e zii) que sai em abril, em São Paulo primeiro. Isso, Caetano, lança em São Paulo e volta pro Rio depois, em maio, e fica em temporada até junho. Me espera e me compensa dessa tristeza que foi perder o Street Spirit. Alive.

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Immerse your soul in love
Immerse your soul in love

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Sexta-feira, Março 20, 2009

"É preciso ser absolutamente moderno"

Cabeceira de Jim Morrison, Patti Smith e Albert Camus (que festinha, hein?), o poeta (e traficante de armas, artista de circo, professor, mendigo...) Arthur Rimbaud hoje ganha headlines aqui pela Zoropa: acabou de sair um volume com suas cartas, passivas e ativas, sim, sim, em todos os sentidos – Promise to be good: the letters of Arthur Rimbaud. Ou Prometo ser bueno: cartas completas, na edição espanhola. As cartas ainda não foram editadas no Brasil, mas temos a obra completa dele, se não me engano, e uma edição comparando suas poesias com as de Jim Morrison: Rimbaud e Jim Morrison, os poetas rebeldes (de onde eu tirei o "É preciso ser absolutamente moderno", mantra para quando passa uma mala onda careta).

Mas as cartas, acho, são muito melhores que as poesias. Ou muito mais divertidas. Tem dois trechos na matéria do El Pais; num deles, para a irmã, o poeta punk choraminga, preocupadíssimo com os cabelos brancos:

"Me porto bien, pero el pelo se me encanece por minutos. Hace tanto tiempo que esto sucede que temo que mi cabeza parezca ahora a la de una borla de maquillaje. Resulta desoladora semejante traición del cuero cabelludo, pero ¿qué hago?"

Em outra carta, descabela os mesmos cabelos brancos pedindo ao amante, Paul Verlaine, para voltar (os dois brigavam muito na época, "o marido infernal e a virgem louca", como ele mesmo dizia). Coloquei uma foto do casal aí embaixo.

"Vuelve, vuelve, querido amigo, amigo único, vuelve. Prometo ser bueno. Si me he mostrado desagradable contigo, fue tan sólo una broma; me ofusqué, me arrepiento de ello más de lo que eres capaz de imaginar. Vuelve, todo se habrá olvidado totalmente. ¡Qué desgracia que te hayas tomado en serio esta broma! No paro de llorar desde hace dos días. Vuelve. Sé valiente, querido amigo. Nada está perdido todavía. [...] No me irás a olvidar, ¿verdad? No, no puedes olvidarme, yo te llevo siempre conmigo".


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Me empolguei nas fofocas do século 19 e lembrei de uma carta do Flaubert para a amante dele, escrita em outubro de 1853, sobre o tanto que escrever Madame Bovary o fazia sofrer (achei o melhor trecho na internet, adoro o "enforcado com delícia"):

"Este livro, no ponto em que estou, me tortura de tal modo (e se eu achasse uma palavra mais forte, eu a empregaria) que eu fico às vezes doente fisicamente. Há três semanas que tenho com freqüência dores de fazer desmaiar. De outras vezes, são opressões, ou melhor, vontade de vomitar na mesa. Tudo me desgosta. Acho que hoje me teria enforcado com delícia, se o orgulho não me tivesse impedido. É certo que às vezes sou tentado a mandar tudo se foder, e a Bovary em primeiro lugar. Que santa idéia maldita eu tive em apanhar um tema semelhante!"

E ainda faltariam três anos para ele terminar de escrever o romance... Esse "mandar tudo se foder" também me lembrou uma matéria que fiz ano passado sobre as cartas de Machado de Assis. Numa delas, para um amigo (acho que Casimiro de Abreu) ele solta um "Porra!", puto da vida porque alguém disse que ele era só um poeta, e não era uma pessoa prática. Fico imaginando ele, barbichinha e chove-dentro, escrevendo palavrão a bico de pena...



Quinta-feira, Março 19, 2009

O óculos é para combinar ;)



Terça-feira, Março 17, 2009

Girafas, cremes e elefantes

Coisas que eu aprendi hoje, conversando, no intervalo da aula.

1) Em Botsuana, se você quiser ter uma girafa em casa, é só pedir ao governo. Não precisa comprar (!). Você prova que tem um quintalzinho, escreve uma cartinha para o presidente e pega o vale-girafa. O que acontece é que o governo não dá conta de cuidar dos bichinhos, que são uma praga no país, e começou a facilitar a "adoção" para quem tem um espaço em casa. A moda pegou e agora tudo quanto é hotel já tem uma família de girafa para brincar com as crianças no café-da-manhã.

2) Na India, mais precisamente em Nova Delhi, um pote de creme-Michael-Jackson custa o mesmo que uma passagem de ônibus. A obsessão pelos tratamentos de beleza que prometem clarear a pele é tão grande, tão grande, que a concorrência entre as empresas de cosméticos colocou os preços no chão. Ah, e o melhor: dá para escolher a tonalidade do branco. ("Não, moço, eu quero Nicole-Kidman!")

3) A Indonésia foi colonizada por holandeses (juro que eu não sabia). E o único país no mundo que fala a mesma língua da Indonésia é o Suriname.

4) Ah! Se você quiser um elefante, em vez da girafa, em Botsuana, também pode. É um pouco mais complicado, tem que ter um quintal maiorzinho e mostrar comprovante de renda, (e não vale só querer recém-nascido e de olhos azuis...) mas é bem provável.

Segunda-feira, Março 16, 2009

Highlands

Piquenique nas Highlands. Passei a tarde de sexta fazendo um bolo de cenoura, acordei no sábado 5h para pegar o trem das 6h16 para Edimburgo. De lá, fomos de ônibus até as Highlands, parando em todos os "Loch" (lórrrr, significa "lago" em gaélico, a língua original da Escócia) do caminho, para quem viu Coração Valente: eu passei por todos os caminhos de Mr. William Wallace. Só não fomos no Lago Ness, porque era longe bagarai e seria muito decepcionante não ver monstro nenhum. E as ovelhinhas pastando, as montanhas branquinhas, o "Hamish" (aquele boi, vaca, sei lá, que tem o chifre retorcido e uma franja emo), as casinhas de pedra, as cachoeiras dando em imensos lagos, o vento que canta... no caminho, uma passadinha numa destilaria de uísque, uma provinha, duas provinhas, opa! a garrafa não é tão cara assim... e de repente, no jardim da frente, um casamento. Ai ai.

Domingo, Março 15, 2009

Uptown Girl


O Islamismo. Eu moro com uma menina de Taiwan, uma da China, uma da Botswana, uma de London London e a Lisda, da Indonésia. Ela é muçulmana. E morar com ela tem sido a maior experiência de respeito da minha vida. Ela jejua dia sim, dia não, reza cinco vezes por dia, a primeira às 7h - ela acorda, veste uma burca branca, reza e volta a dormir. E vai para a aula comigo, volta comigo, nos encontramos na biblioteca, no supermercado (ah, claro, quando ela não jejua nem reza, ela come. Arroz.) Eu estou sempre meio suspensa com ela, nunca sei se posso falar qualquer coisa, no finde do Carnaval, por exemplo, ela me perguntou o que era o Carnaval, e eu fiquei 5 minutos pensando. É claro que eu julgo, o dia inteiro, olho para ela toda cobertinha sem comer e me dá vontade de chamar o comitê de direitos humanos da ONU... Tem sido um exercício do "outro" muito forte, muito mais significativo do que todas as aulas de "identity"... E temos discussões ótimas, como quando eu perguntei como o islamismo vê o homossexual, e ela me disse que há tanto preconceito no Islamismo quanto há no Cristianismo (!) e eu me lembrei que a Igreja Católica talvez seja a instituição mais homofóbica do mundo. Ou quando ela me perguntou se eu também tinha que juntar um dote para pagar à família do meu "noivo" quando eu me casasse, e eu tive que voltar na caravela de Pedro Alvares Cabral para explicar por quê fomos colonizados, misturados, e nossa cultura é uma salada de índios, europeus e africanos, blá blá blá... até chegar na tradução carioca de "dote" (brincadeirinha, fiz isso não). Em muitos aspectos a vida dela é igual a de qualquer pessoa de 24 anos, ela tem facebook, sabe o nome de todos os jogadores de futebol da Europa, gosta da Alicia Keys e foi até um dia ver Revolutionary Road comigo, e aguentou a cena final com muito mais estômago do que eu, que me acabei de chorar no cinema. Eu e ela somos completamente diferentes, e ainda assim, incrivelmente amigas. No dia do meu aniversário eu pedi a ela que saísse comigo, só para ver como era um pub, uma festa, como a gente dança ou celebra, e prometi que voltava para casa a hora que ela quisesse, e ela foi. Ninguém acreditou quando eu cheguei com a Lisda lá, de headscarf. Bebendo Apple juice. Fomos a um pub com karaokê, "The Pilmor", e depois de me acabar em Bizarre Love Triangle, Losing my Religion (rá!), Sweethome Alabama e essas coisas que você canta bêbado, ela disse que queria cantar... e escolheu "Uptown Girl"!!! Juro que eu fiquei muito mais escandalizada do que ela, que sabia a letra toda sem ler no telão! (...And when she knows what she wants from her time/and when she wakes up and makes up her mind...)

Sexta-feira, Março 13, 2009

Saint Andrews


Já tenho CEP e cartão de desconto do supermercado. O que eu sabia daqui? Kilt, uísque, uma paisagem branca e montanhosa na minha cabeça, uns escritores complicados, a música celta, filmes que passariam como irlandeses, e ingleses, tranquilamente. Eu ainda não sei muito, mas já aprendi a reconhecer uma inesperada amabilidade. Que, acho, tem menos de européia, mas talvez mais desta “síndrome de Canadá” da qual padecem os países desenvolvidos e marginais. O que esperar da Dinamarca, Canadá ou Escócia? Que fiquem ali, mantendo seus maravilhosos índices de desenvolvimento humano, sem abrigar nenhum núcleo terrorista e financiando milhares de bolsas de estudo para os países pobres. Nenhum deles vai virar uma China, do nada, então... Por enquanto eu tive a sorte de achar os escoceses, e seus chás, e saias, absolutamente amáveis.

Quarta-feira, Março 11, 2009

KY168BP


E, de repente, eu moro na Escócia.