Sábado, Abril 25, 2009

O que eu achei de Zii e Zie: uma crítica mais egoísta do que impressionista


Eu já ouvi Zii e Zie o bastante para comentar. A primeira vez foi uma boa surpresa – eu esperava uma decepção. Por motivos pessoais dos quais o Caetano não tem culpa nenhuma: ciúme de uns momentos do show que eu queria que ficassem em junho de 2008. E me confortava pensar que seria uma decepção ouvir e sentir aquilo tudo de novo. Os shows do Obra em Progresso (e eu fui a uns três) já tinham fechado o ciclo, eu podia ficar só com a lembrança. Enfim. Lembro que não gostava de algumas coisas, e de outras muito, e assim é meu estranho amor pelas caetanices. De umas coisas eu gosto muito, é mais eu do eu suporto, e de outras não gosto nem de lembrar. Nada da sua obra me é indiferente. Caetano e David Bowie, eu queria chamar os dois para tomar café da manhã no meu jardim imaginário e conversar horas como se fôssemos eternos. Conversar até acordar no dia seguinte sem saber exatamente como aconteceu. “Caetano, tira a orquídea do sol, por favor, e acorda o Bowie, enquanto eu coloco a água para ferver”.

Mas Zii e Zie: primeiro foi a surpresa boa. Depois eu comecei a pular algumas músicas, e a repetir outras, muitas vezes. Estou curiosa para ver as de Transa no meio dessas no novo show. Aliás, é um disco que deve ser visto. No geral, no entanto, senti pouca novidade. Tem que ter novidade sempre? Acho que sim. ((Estou falando do produto, das músicas sobre o Rio, porque a concepção do álbum, um ensaio aberto num blog, é cheio de generosidade e originalidade)). Nem vou ousar comparar “Zii e Zie” com “Cê” porque não gosto do sentimento de ter que comparar. Não tem que ser melhor, ou pior, são dois discos, duas coisas, duas festas diferentes, um é carnaval o outro aniversário, duas margens com uma ponte novinha no meio: Caetano, sempre mais um pouco.

“Perdeu”: acho que a música mais forte do disco. Um prenúncio do clima de transe que tem todo o show, esse transe sobre a narrativa que atinge o auge com “Incompatibilidade de gênios”. Me agrada muito que ela seja a primeira música e que não termine nunca. Um golpe realista: “O sol se pôs, nasceu, e nada aconteceu”. Ah.

“Sem cais”: linda, linda, a imagem dos versos “seu sorriso bateu aqui, inda posso me apaixonar [...] mar imenso sem cais, tô com medo de ver/ que inda posso ir bem mais” me fazem lembrar o Javier Bardem delirando, no fime ‘Mar adentro”: “Mar adentro, mar adentro/y en la engravedad del fondo/donde se cumplen los sueños/se juntan dos voluntades/para cumplir un deseo/tu mirada y mi mirada/como un eco, repitiendo sin palabras:/más adentro, más adentro”

“Por quem?” segue o que sobrou de força da primeira e leveza da segunda, acho. Ela canta sorrindo? Parece, quando ouço tenho a sensação de que ele canta sorrindo. Mas me dá uma vontadezinha de chorar, e um pouco de agonia.

“Lobão tem razão” é uma boa manchete, mas não uma boa música. Apesar de eu gostar muito da imagem de “o homem é o próprio Lobão do homem/ela só vem quando os mortos somem”.

“A cor amarela” é uma bala de coco. O refúgio baiano nesta crônica carioca que é o disco todo.

“Base de Guantánamo”: acho incrível ter uma música já velha no disco. Ele criticava a Base com um monte de golpes de ritmo (as mesmas armas de "Haiti") antes do Obama ganhar e fechá-la. Obama rocks e Caetano escreve!

“Falso Leblon”: me constrange profundamente, não gosto e pulo. Deve ser implicância por localizar o Rio no Leblon, neste Leblon que é o Rio todo, soa tiozão e superficial. E ainda tem uma rima de “cocaína” com “menina” que o Reginaldo Rossi já cansou há alguns verões.

“Incompatibilidade de gênios”. Delícia. Parece uma resposta aos falsos “odeios” de “Falso Leblon”, porque te coloca de volta no transe. Tem uma psicodelia sobre o que não é samba ainda, mas uma gênese do samba. São tantas camadas sobre a narrativa de Aldir Blanc e João Bosco, em ton-sûr-ton, a raiva vai crescendo com as novas cores da música, não? Minha preferida, disparado.

Aí uma implicância: eu queria saber por que "Tarado ni você" vem depois de "Incompatibilidade...." Não pela contradição temática, mas porque divide o disco em dois. Tira um pé do disco, dá um susto e desmaia, sei lá como explicar. Eu não gosto, não encontro a poesia que ela promete, seu experimentalismo não me faz feliz.

“Menina da Ria”, passo. Pelo meu estado emocional “abroad”, ela não me comove nem me irrita, eu só não quero ouvir nada que tenha este sentimento de exílio ou saudação do estrangeiro agora.

“Ingenuidade”, outra flor, um sambinha doído, como deve ser a tristeza que balança.

“Lapa”: acho que sofre da mesma doença de “Falso Leblon”, mas é mais carinhosa. “Quem projetaria essa elegância solta?”, diz a letra, e eu gosto, senão a Lapa? Quem projetaria essa identificação pela nostalgia, senão Caetano? A Lapa personificada pelo casal ‘Lula e FH’ me parece romantizada. Como a lista de adjetivos e lugares...

“Diferentemente”: Caetano e seus intertextos para quem quiser entrar. Eu gosto muito da música, mais até do que da letra, e acho que encerra bem: “Eu não acredito em Deus”, o último verso do disco, acabou, ponto.

4 comentários:

Diogo disse...

uma menina preta de biquini amarelo na frente da onda. que onda que onda que onda que dá! que bunda! que bunda!

lettuce disse...

ainda não ouvi tudo, que vergonha de mim. mas eu também não gosto de falso leblon. será que é pq sou tijucana? hahaha besteira. me constrange um pouco também. mas o resto que ouvi, me delicio. adoray o relato egoísta caetanístico. adoray.

Anônimo disse...

gostei bastante de Lapa
mas o Caetano tem mesmo e que se aposentar ta muito velho e o figurino do show esta ridiculo ele com umas calcas horrorosas muito grandes la embaixo
ta na idade de ir pro retiro dos artistas
que bicha é essa?

Upiara Boschi disse...

Ouço o disco no mesmo roteiro que você.
=)