O Islamismo. Eu moro com uma menina de Taiwan, uma da China, uma da Botswana, uma de London London e a Lisda, da Indonésia. Ela é muçulmana. E morar com ela tem sido a maior experiência de respeito da minha vida. Ela jejua dia sim, dia não, reza cinco vezes por dia, a primeira às 7h - ela acorda, veste uma burca branca, reza e volta a dormir. E vai para a aula comigo, volta comigo, nos encontramos na biblioteca, no supermercado (ah, claro, quando ela não jejua nem reza, ela come. Arroz.) Eu estou sempre meio suspensa com ela, nunca sei se posso falar qualquer coisa, no finde do Carnaval, por exemplo, ela me perguntou o que era o Carnaval, e eu fiquei 5 minutos pensando. É claro que eu julgo, o dia inteiro, olho para ela toda cobertinha sem comer e me dá vontade de chamar o comitê de direitos humanos da ONU... Tem sido um exercício do "outro" muito forte, muito mais significativo do que todas as aulas de "identity"... E temos discussões ótimas, como quando eu perguntei como o islamismo vê o homossexual, e ela me disse que há tanto preconceito no Islamismo quanto há no Cristianismo (!) e eu me lembrei que a Igreja Católica talvez seja a instituição mais homofóbica do mundo. Ou quando ela me perguntou se eu também tinha que juntar um dote para pagar à família do meu "noivo" quando eu me casasse, e eu tive que voltar na caravela de Pedro Alvares Cabral para explicar por quê fomos colonizados, misturados, e nossa cultura é uma salada de índios, europeus e africanos, blá blá blá... até chegar na tradução carioca de "dote" (brincadeirinha, fiz isso não). Em muitos aspectos a vida dela é igual a de qualquer pessoa de 24 anos, ela tem facebook, sabe o nome de todos os jogadores de futebol da Europa, gosta da Alicia Keys e foi até um dia ver Revolutionary Road comigo, e aguentou a cena final com muito mais estômago do que eu, que me acabei de chorar no cinema. Eu e ela somos completamente diferentes, e ainda assim, incrivelmente amigas. No dia do meu aniversário eu pedi a ela que saísse comigo, só para ver como era um pub, uma festa, como a gente dança ou celebra, e prometi que voltava para casa a hora que ela quisesse, e ela foi. Ninguém acreditou quando eu cheguei com a Lisda lá, de headscarf. Bebendo Apple juice. Fomos a um pub com karaokê, "The Pilmor", e depois de me acabar em Bizarre Love Triangle, Losing my Religion (rá!), Sweethome Alabama e essas coisas que você canta bêbado, ela disse que queria cantar... e escolheu "Uptown Girl"!!! Juro que eu fiquei muito mais escandalizada do que ela, que sabia a letra toda sem ler no telão! (...And when she knows what she wants from her time/and when she wakes up and makes up her mind...)
Domingo, Março 15, 2009
Uptown Girl
O Islamismo. Eu moro com uma menina de Taiwan, uma da China, uma da Botswana, uma de London London e a Lisda, da Indonésia. Ela é muçulmana. E morar com ela tem sido a maior experiência de respeito da minha vida. Ela jejua dia sim, dia não, reza cinco vezes por dia, a primeira às 7h - ela acorda, veste uma burca branca, reza e volta a dormir. E vai para a aula comigo, volta comigo, nos encontramos na biblioteca, no supermercado (ah, claro, quando ela não jejua nem reza, ela come. Arroz.) Eu estou sempre meio suspensa com ela, nunca sei se posso falar qualquer coisa, no finde do Carnaval, por exemplo, ela me perguntou o que era o Carnaval, e eu fiquei 5 minutos pensando. É claro que eu julgo, o dia inteiro, olho para ela toda cobertinha sem comer e me dá vontade de chamar o comitê de direitos humanos da ONU... Tem sido um exercício do "outro" muito forte, muito mais significativo do que todas as aulas de "identity"... E temos discussões ótimas, como quando eu perguntei como o islamismo vê o homossexual, e ela me disse que há tanto preconceito no Islamismo quanto há no Cristianismo (!) e eu me lembrei que a Igreja Católica talvez seja a instituição mais homofóbica do mundo. Ou quando ela me perguntou se eu também tinha que juntar um dote para pagar à família do meu "noivo" quando eu me casasse, e eu tive que voltar na caravela de Pedro Alvares Cabral para explicar por quê fomos colonizados, misturados, e nossa cultura é uma salada de índios, europeus e africanos, blá blá blá... até chegar na tradução carioca de "dote" (brincadeirinha, fiz isso não). Em muitos aspectos a vida dela é igual a de qualquer pessoa de 24 anos, ela tem facebook, sabe o nome de todos os jogadores de futebol da Europa, gosta da Alicia Keys e foi até um dia ver Revolutionary Road comigo, e aguentou a cena final com muito mais estômago do que eu, que me acabei de chorar no cinema. Eu e ela somos completamente diferentes, e ainda assim, incrivelmente amigas. No dia do meu aniversário eu pedi a ela que saísse comigo, só para ver como era um pub, uma festa, como a gente dança ou celebra, e prometi que voltava para casa a hora que ela quisesse, e ela foi. Ninguém acreditou quando eu cheguei com a Lisda lá, de headscarf. Bebendo Apple juice. Fomos a um pub com karaokê, "The Pilmor", e depois de me acabar em Bizarre Love Triangle, Losing my Religion (rá!), Sweethome Alabama e essas coisas que você canta bêbado, ela disse que queria cantar... e escolheu "Uptown Girl"!!! Juro que eu fiquei muito mais escandalizada do que ela, que sabia a letra toda sem ler no telão! (...And when she knows what she wants from her time/and when she wakes up and makes up her mind...)
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3 comentários:
delícia de texto delícia.
eu acho que você devia convidá-la pro carnaval 2010!
a-mei! que bom te ler de novo!
beijo beijo
também adoray o texto, mariana. fiquei curiosa em conhecer a lisda.
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