Sexta-feira, Março 20, 2009

"É preciso ser absolutamente moderno"

Cabeceira de Jim Morrison, Patti Smith e Albert Camus (que festinha, hein?), o poeta (e traficante de armas, artista de circo, professor, mendigo...) Arthur Rimbaud hoje ganha headlines aqui pela Zoropa: acabou de sair um volume com suas cartas, passivas e ativas, sim, sim, em todos os sentidos – Promise to be good: the letters of Arthur Rimbaud. Ou Prometo ser bueno: cartas completas, na edição espanhola. As cartas ainda não foram editadas no Brasil, mas temos a obra completa dele, se não me engano, e uma edição comparando suas poesias com as de Jim Morrison: Rimbaud e Jim Morrison, os poetas rebeldes (de onde eu tirei o "É preciso ser absolutamente moderno", mantra para quando passa uma mala onda careta).

Mas as cartas, acho, são muito melhores que as poesias. Ou muito mais divertidas. Tem dois trechos na matéria do El Pais; num deles, para a irmã, o poeta punk choraminga, preocupadíssimo com os cabelos brancos:

"Me porto bien, pero el pelo se me encanece por minutos. Hace tanto tiempo que esto sucede que temo que mi cabeza parezca ahora a la de una borla de maquillaje. Resulta desoladora semejante traición del cuero cabelludo, pero ¿qué hago?"

Em outra carta, descabela os mesmos cabelos brancos pedindo ao amante, Paul Verlaine, para voltar (os dois brigavam muito na época, "o marido infernal e a virgem louca", como ele mesmo dizia). Coloquei uma foto do casal aí embaixo.

"Vuelve, vuelve, querido amigo, amigo único, vuelve. Prometo ser bueno. Si me he mostrado desagradable contigo, fue tan sólo una broma; me ofusqué, me arrepiento de ello más de lo que eres capaz de imaginar. Vuelve, todo se habrá olvidado totalmente. ¡Qué desgracia que te hayas tomado en serio esta broma! No paro de llorar desde hace dos días. Vuelve. Sé valiente, querido amigo. Nada está perdido todavía. [...] No me irás a olvidar, ¿verdad? No, no puedes olvidarme, yo te llevo siempre conmigo".


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Me empolguei nas fofocas do século 19 e lembrei de uma carta do Flaubert para a amante dele, escrita em outubro de 1853, sobre o tanto que escrever Madame Bovary o fazia sofrer (achei o melhor trecho na internet, adoro o "enforcado com delícia"):

"Este livro, no ponto em que estou, me tortura de tal modo (e se eu achasse uma palavra mais forte, eu a empregaria) que eu fico às vezes doente fisicamente. Há três semanas que tenho com freqüência dores de fazer desmaiar. De outras vezes, são opressões, ou melhor, vontade de vomitar na mesa. Tudo me desgosta. Acho que hoje me teria enforcado com delícia, se o orgulho não me tivesse impedido. É certo que às vezes sou tentado a mandar tudo se foder, e a Bovary em primeiro lugar. Que santa idéia maldita eu tive em apanhar um tema semelhante!"

E ainda faltariam três anos para ele terminar de escrever o romance... Esse "mandar tudo se foder" também me lembrou uma matéria que fiz ano passado sobre as cartas de Machado de Assis. Numa delas, para um amigo (acho que Casimiro de Abreu) ele solta um "Porra!", puto da vida porque alguém disse que ele era só um poeta, e não era uma pessoa prática. Fico imaginando ele, barbichinha e chove-dentro, escrevendo palavrão a bico de pena...



1 comentários:

jorge vicente disse...

ah que vontade me deste de eu ler as cartas do rimbaud. espero que elas estejam à venda em portugal!

um abraço
jorge vicente