Segunda-feira, Dezembro 01, 2008

Caixa de entrada: Guilherme para mim 17h39 (6 horas atrás)

Tropecei num texto agora que talvez tenha a ver com o que a gente conversou mais cedo:

Nada mais deprimente do que imaginar o Texto como um objeto intelectual (de reflexão, de análise, de comparação, de reflexo, etc). O Texto é, muitas vezes, apenas estilístico: há expressões felizes, ou felicidades de expressão (...) No entanto, o prazer do Texto realiza-se, por vezes, de uma forma mais profunda (e é então que se pode justamente dizer que há Texto): quando o texto "literário" (o Livro) transmigra para a nossa vida, quando uma outra escrita (a escrita do Outro) consegue escrever fragmentos da nossa própria quotidianidade, em resumo, quando se produz uma co-existência.

É do Barthes, claro (quem mais diria "prazer" e "texto" no mesmo fôlego?), na introdução ao Sade, Fourier, Loiola.

Não que esse trechinho resolva nossa questão (dedicar-se ao estudo é isolar-se do mundo?), mas acho que aponta um caminho: se deixamos de "estudar" os textos e passamos a "conviver", a "existir" com eles, então o estudo passa a ser mais uma oportunidade de aprimorar nossa forma de estar no mundo - não é um fim em si mesmo, não se esgota numa dissertação ou num livro, mas transforma a pessoa que somos e, conseqüentemente, as pessoas e o mundo à nossa volta.

O truque, acho, está na maneira como provocamos esse "conseqüentemente". Porque não é uma conseqüência natural; é preciso algum esforço pra passar do ato aparentemente solitário que é o estudo (e digo "aparentemente" porque sob essa aparência de isolamento há uma rede quase infinita de pequenas colaborações e trocas significativas que muitas vezes passam despercebidas) aos atos coletivos que podem florescer dele: e aí cabe tudo, da conversa transformadora com um amigo à atividade política no parlamento de Haia. Mas é preciso provocar isso, trabalhar pra que o estudo ultrapasse a página, a biblioteca, a sala de aula. Vamos fazer isso? Eu também preciso de um empurrão.

Melhoras pra sua psicossomose e boa sorte com a neve! Pense pelo lado bom, daqui a duas semanas você vai estar tomando uma caipirinha em que nenhum dos ingredientes é importado...

Beijos!

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