
Somatizar é o novo preto. Desde segunda-feira eu sou um dálmata, um mapa-mundi, e a minha avaria chama-se urticária. Eu somatizo, tu somatizas, nós somatizamos. Que crise tá na moda, né? Ainda mais assim, internacional. As ações da minha Wall Street oscilam: mestrado ou Lapa? Intelectual ou proletária? Um amor ou uma cabana? Enquanto isso, olho no espelho e vejo um Canadá inteiro nas minhas costas. Hoje pela manhã, já bem melhor, só achei uma Micronésia perto do punho. O que provocou a alergia? Pode ter sido um monte de coisas, desde um sabonete a um chocolate, mas o mais provável é que seja angústia, segundo São Freud. Que somatiza, somatiza, até virar uma espinha, uma febre ou uma urticária.
Uma amiga me ajuda a puxar, terapia por skype: e que angústia é essa? A ver... é difícil porque é íntimo demais. A primeira paranóia, quase um lugar comum de quem mora fora: sentir-se sozinha. A tentação é grande, combina mais com o mood, o clima, as músicas. Você acorda sozinha, almoça sozinha, faz compra só para um, se bobear não falou uma palavra até a hora da aula. E o frio te tranca no quarto, e a soledade gira em sentido horário, com o botão da calefação.
Pois foi só eu ficar toda empolada na aula de segunda-feira para eu entender que isso não é verdade. Eu não estou sozinha. O Dago arrumou um pequeno comboio para me levar ao hospital, e a sala de espera parecia uma festa. O Thiago me deu um abraço e um prato de arroz com feijão, e ainda me ensinou a jogar Playstation. Carlos e Antia fizeram compras pra mim. Pelo telefone, eu ia dizendo : "patacas! perejil! leche desnatada!"... À noite, quando já estava indo dormir, grogue de tanto corticóide na veia, me aparece a Milka, boliviana gracinha que mora a três portas da minha, com uma Tarta de Santiago e duas temporadas de Sex and the City (nada como a identificação feminina). Até aula gravada em mp3 pelo email eu recebi.
Muita coisa ainda deve virar espinha ou soluço, e a moda "somatizar" certamente não vai passar nessa temporada. Mas só de riscar o primeiro ítem da lista de angústias, o dálmata saiu do casulo...
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