
Esta semana eu estou flipando, como se diz por aqui, com Virginia Woolf e com o Cidadão Instigado. Em uma das aulas, “Modernismo Inglés”, revemos as primeiras décadas do século 20 na literatura inglesa, até 1930/40, mais ou menos. Flipando. Entender o que essa mocinha fez com tanta caraminhola na cabeça... ela era praticamente um Arnaldo Batista dos mil-e-novecentos, sem piano e com uma sociedade inteira no lugar da Rita Lee. Dessa vez leio os romances, as cartas e os diários ao mesmo tempo. Perceber como ela escolhia as palavras e as imagens, (nos romances e nas brigas em casa, inclusive), os instintos e as conexões que fazia. Difícil é ter em mente a Nicole Kidman em “As Horas” toda vez que eu penso nela, é como lembrar das aberturas das novelas do Manoel Carlos quando se ouve Wave, do Tom Jobim. Estragou, já era. E a Kidman nem tava mal não, mas pô...
Comecei com os contos (tem na internet o Monday or Tuesday traduzido para o português, curtíssimo,
aqui); passei para O quarto próprio, e agora tô tentando levar o “Passeio ao farol” e “Mrs. Dalloway” – que inspira o filme As Horas – ao mesmo tempo. Um dos contos, “A mark on the wall”, é sobre, oras, uma marca na parede. Sentada no living room (que, na época, era um espaço na casa dos ricos para os velórios, por isso o nomezinho irônico), percebe uma marca na parede e começa a viajar no que seria aquela mancha. Em vez de levantar e ver de perto o que era, ela fala de mil coisas relacionadas ou não, como se a marca na parede fosse ela mesma, o mundo, e todas as palavras coubessem ali dentro. Como a gente doidão viajando na televisão desligada, por exemplo. Ah. Leiam, leiam, leiam. Outro, “Solid objects”, sobre um político, um senhor de meia-idade muito prestigiado que começa a desenvolver uma fixação por colecionar cacos de vidro e pedras. Fissurado pelos solid objects, larga tudo para sair catando por aí, uma Estamira de terno– e a coisa vai num crescente, uma fissura, que eu me pergunto quais são as pedras que estou colecionando na vida, e qual caco de vidro me faria largar uma vidinha nove-às-seis. Ah. O Monday or Tuesday, que eu linquei acima, é sobre uma garça (heron) que sobrevoa alguns fatos (não dá para explicar) e reflete sobre aquilo. Eu li primeiro “heron” como “heroe” e entendi tudo errado). Reli e veio a garça num rasante sobre a minha cabeça, e já li umas dez vezes, cada vez de um jeito, que viagem, Virginia rules (!) e eu flipo.
Enquanto leio, ouço o novo do Cidadão Instigado, “Uhuuuuuu!!”, numa viagem instantânea entre a Londres de Virginia e o Nordeste dos barbudinhos. Que álbum sabido. Acho que foram os mesmos extraterrestres de Virginia que assopraram por ali. Ouvi umas três vezes estranhando até comecar a repetir instintivamente – o que é aquela faixa de abertura (“A radiação na terra”)? Um susto semi-hippie, demi-sec, seguido por um coração aberto, meio brega, meio trilha de filme moderninho, “Como as luzes” – “eu vejo até as nuvens me levando para eu te encontrar/e o sol/te olhando viver” (essa combina com o conto Monday or Tuesday!).
Mais uma rapidinho: Deus é uma viagem.