Sexta-feira, Dezembro 11, 2009

Lycra-limão


É que quando a gente mora fora tem essa coisa de ficar brasileiro demais, uma coisa chata, enjoada, mas que tem um lado bom. O meu foi que eu ouvi muita música brasileira. Muita. E fui catando umas coisas novas, umas dores mais refinadas... Não resisti ao apelo do bufão Cristiano Marinho, joker face do Baile Curinga, e fiz meu primeiro podcast, "Lycra-limão" (com música exclusiva e tudo!).

Eu sei que essas coisas não se explica, mas eu não sou dj, sou jornalista ;)

A primeira faixa é do novo disco do Cidadão Instigado (Uhuuu!), “A radiação na Terra”, que não é uma música, é um filme. Os caras gravaram pela primeira vez num EP em 1999 (esta versão tá na lista também) e, desde então, há 10 anos, vêm trabalhando nela. Sigo com “Lycra-limão”, a Garota de Ipanema de Lucas Santanna (“É desafinado, mais que dissonante/ é contagiante/ seu modo de cruzar a Prado Junior a caminho do mar), do ótimo álbum-processo 3 sessions in a greenhouse. Depois, os grooves dos paraibanos da banda Burro Morto, na faixa “Menarca” – prestem atenção na intro! A próxima é um deslize da Céu: uma versão irresistível de “Visgo de Jaca”, do Martinho da Vila, que ela deixou de fora do seu álbum novo, Vagarosa.

Foi difícil escolher uma só do Curumin para emendar aqui, e exatamente aqui, mas quis “Dançando no escuro” pelas imagens que a letra sugere – tem mais poesia aqui do que em muita Flip! Depois, uma pausa para a dor kafkiana do Otto: “Seis minutos”. A 8 é uma experiência do Karnak: um clássico brega de Kleiton & Kledir dos 80, “Nuvem Passageira”, no meio de um quase poema concreto; “Sósereieuseforsó”.

Aí vêm os meninos do Caetano Veloso em “Deixa Disso”, do álbum instrumental Ímã seguido pela “Extreme Elegance” de Leo Brasil. Não resisti e coloquei um Arnaldo Batista do disco “Patrulha do Espaço” para homenagear o melhor filme-música do ano, Loki. Segue a versão original de “A irradiação na Terra” da qual falei no começo, depois uma gargalhada do Wado mixada (o podcast é do Baile Curinga, “Curinga”, gargalhada, sacaram?) e uma surpresa exclusiva no final: Lettuce e sua versão francesa de “Caso Sério” de Rita Lee – “Serieuse Affair” – que só deve ser lançada em álbum no ano que vem.

Sexta-feira, Novembro 27, 2009

nenhuma boa

Tive mil razões para o deixar – nenhuma boa.
Ele dizia que queria apenas
que eu o amasse e risse – e escrevesse versos.
Então, ao dizer isso (como se os versos pudessem ser escritos depois que se faz
chá ou cocô), eu compreendi
que ele não compreendia
o que estava dizendo simpaticamente.
Sei que é complicado, porém não duvide
de que eu o amava talvez por isso mesmo:
por Nikolai não compreender nada.

Fernando Monteiro, Vi uma foto de Anna Akhmátova


Acabo de receber aqui em Santiago a visita de uma amiga do tamanho do Recife, Carol Monteiro, que me trouxe de presente o novo livro de seu painho, Fernando Monteiro: Vi uma foto de Anna Akhmátova. Mal foi publicado e já recebeu resenhas apaixonadas pelos suplementos literários do Brasil todo (fiquei com invejinha por não ter sido eu a autora de uma delas...) Li de uma vez só, depois de acordar completamente sem voz e descobrir que não dá para fazer quase nada sem falar. Já perceberam? Vai tomar um banho sem falar uma palavra, nem com você mesmo, ou botar um café no fogo sem reclamar alto... mas dá para ler. Passei uma manhã pensando nas dores de Anna Akhmátova, enquanto esperava a Carol acordar.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Sobre cuecas


Já é a segunda vez que me acontece por aqui. Vou a um show e sou obrigada a ver o vocalista de cueca. Não sei o que passa na cabeça dos mocinhos, calor é que não é. Eles baixam as calças, super viris, e aquele paninho branco semi-transparente ali, embaixo de uma pancinha, alojando alguns pêlos ou algumas tatuagens que deveriam ter ficado em 1987. A cueca número 1 foi em Berlim Oriental, em outubro de 2007, no White Trash, uma caverna com uns shows hardcore-punk. No dia que fomos lá (lembra, Verly?) era a banda canadense Brutal Knights. Depois de conhecer a cuequinha e as tattoos de '87, encontramos o vocalista no dia seguinte, na fila para entrar em um campo de concentração (!). Custamos a tomar coragem e perguntar algo como "Oh, sorry, were you last night in White Trash?" (pegaram? "white-trash", "cueca-branca"...) e ops, "yes, did you like the concert?". Um bate-papo muito agradável, assim, a caminho das câmaras de gás.
...
A cueca número 2 foi na última sexta-feira, no show Che Sudaka (uma mistura de Manu Chao com Ratos do Porão) + A-Bones (A "banda-à-parte" do vocalista e guitarrista do Yo La Tengo, Ira Kaplan). Mas desta vez, pelo menos, a cueca era azul-marinho...




Quinta-feira, Novembro 05, 2009

aqui se vende na lojinha


... com anuncio no jornal :)

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

O hipopótamo que tinha alergia à mágica

(ou “Licenças aristotélicas para crianças”, ou ainda
“Roteiro para um comercial de sabão em pó”)

E se eu quiser escrever um livro, mamãe?
Primeiro faz um desenho bem bonito para contar sua história. Vai ser sobre o quê?
Sobre um hipopótamo que tem alergia à mágica.
Você viu isso onde?
Na internet.
Então não é sua história, alguém inventou primeiro.
Então não pode?
Ah, inventa uma sua, é mais legal...
Por quê não pode?
Não é que não pode, mas alguém já teve essa idéia primeiro, do hipopótamo com alergia.
Mas eu que vou escrever o livro.
Sim, mas pensa em outra coisa...uma girafa com medo de helicóptero, ou um tigre que espirra quando vê estrelas.
Mas se você já inventou eu não posso mais inventar a mesma história.
Então faz o hipopótamo, tudo bem.
Mas agora eu quero inventar uma história só minha.
Ótimo. E quando você escrever seu livro, todo mundo vai ler a sua história.
Mas aí alguém pode copiar e fazer um livro igual.
Não, porque você já vai ter escrito no livro.
E aí vai ser só minha a história?
Sua e de quem quiser comprar o livro e ler a história, ué.
Então eu não quero mais fazer o livro.
E você queria fazer o livro por que, então?
Para contar uma história.
Que história?
De um hipopótamo que tem alergia à mágica.
Então pega o lápis de cor e começa, rapazinho.
Mas primeiro eu tenho que fazer a história.
Faz desenhando, ué.
O hipopótamo pode ser de qualquer cor?
Pode.
Pode ser vermelho?
Não existe hipopótamo vermelho.
Mas existe tanta coisa vermelha...
Sim, mas hipopótamo vermelho não existe.
E azul?
Também não.
E roxo?
(...)
E hipopótamo que tem alergia à mágica, existe?
Não, mas na sua história pode existir.
E pode ser vermelho?
Pode.
Então no final sempre pode?
Se for sua a história, sim.
Mas o hipopótamo com alergia à mágica não é minha história.
Mas o hipopótamo vermelho é.

Então se eu mudar um pouco a história pode sempre ser minha?







Sábado, Outubro 31, 2009

Quem tem medo de Cidadão Instigado?


Esta semana eu estou flipando, como se diz por aqui, com Virginia Woolf e com o Cidadão Instigado. Em uma das aulas, “Modernismo Inglés”, revemos as primeiras décadas do século 20 na literatura inglesa, até 1930/40, mais ou menos. Flipando. Entender o que essa mocinha fez com tanta caraminhola na cabeça... ela era praticamente um Arnaldo Batista dos mil-e-novecentos, sem piano e com uma sociedade inteira no lugar da Rita Lee. Dessa vez leio os romances, as cartas e os diários ao mesmo tempo. Perceber como ela escolhia as palavras e as imagens, (nos romances e nas brigas em casa, inclusive), os instintos e as conexões que fazia. Difícil é ter em mente a Nicole Kidman em “As Horas” toda vez que eu penso nela, é como lembrar das aberturas das novelas do Manoel Carlos quando se ouve Wave, do Tom Jobim. Estragou, já era. E a Kidman nem tava mal não, mas pô...

Comecei com os contos (tem na internet o Monday or Tuesday traduzido para o português, curtíssimo, aqui); passei para O quarto próprio, e agora tô tentando levar o “Passeio ao farol” e “Mrs. Dalloway” – que inspira o filme As Horas – ao mesmo tempo. Um dos contos, “A mark on the wall”, é sobre, oras, uma marca na parede. Sentada no living room (que, na época, era um espaço na casa dos ricos para os velórios, por isso o nomezinho irônico), percebe uma marca na parede e começa a viajar no que seria aquela mancha. Em vez de levantar e ver de perto o que era, ela fala de mil coisas relacionadas ou não, como se a marca na parede fosse ela mesma, o mundo, e todas as palavras coubessem ali dentro. Como a gente doidão viajando na televisão desligada, por exemplo. Ah. Leiam, leiam, leiam. Outro, “Solid objects”, sobre um político, um senhor de meia-idade muito prestigiado que começa a desenvolver uma fixação por colecionar cacos de vidro e pedras. Fissurado pelos solid objects, larga tudo para sair catando por aí, uma Estamira de terno– e a coisa vai num crescente, uma fissura, que eu me pergunto quais são as pedras que estou colecionando na vida, e qual caco de vidro me faria largar uma vidinha nove-às-seis. Ah. O Monday or Tuesday, que eu linquei acima, é sobre uma garça (heron) que sobrevoa alguns fatos (não dá para explicar) e reflete sobre aquilo. Eu li primeiro “heron” como “heroe” e entendi tudo errado). Reli e veio a garça num rasante sobre a minha cabeça, e já li umas dez vezes, cada vez de um jeito, que viagem, Virginia rules (!) e eu flipo.

Enquanto leio, ouço o novo do Cidadão Instigado, “Uhuuuuuu!!”, numa viagem instantânea entre a Londres de Virginia e o Nordeste dos barbudinhos. Que álbum sabido. Acho que foram os mesmos extraterrestres de Virginia que assopraram por ali. Ouvi umas três vezes estranhando até comecar a repetir instintivamente – o que é aquela faixa de abertura (“A radiação na terra”)? Um susto semi-hippie, demi-sec, seguido por um coração aberto, meio brega, meio trilha de filme moderninho, “Como as luzes” – “eu vejo até as nuvens me levando para eu te encontrar/e o sol/te olhando viver” (essa combina com o conto Monday or Tuesday!).

Mais uma rapidinho: Deus é uma viagem.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

saudade