Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Sobre cuecas


Já é a segunda vez que me acontece por aqui. Vou a um show e sou obrigada a ver o vocalista de cueca. Não sei o que passa na cabeça dos mocinhos, calor é que não é. Eles baixam as calças, super viris, e aquele paninho branco semi-transparente ali, embaixo de uma pancinha, alojando alguns pêlos ou algumas tatuagens que deveriam ter ficado em 1987. A cueca número 1 foi em Berlim Oriental, em outubro de 2007, no White Trash, uma caverna com uns shows hardcore-punk. No dia que fomos lá (lembra, Verly?) era a banda canadense Brutal Knights. Depois de conhecer a cuequinha e as tattoos de '87, encontramos o vocalista no dia seguinte, na fila para entrar em um campo de concentração (!). Custamos a tomar coragem e perguntar algo como "Oh, sorry, were you last night in White Trash?" (pegaram? "white-trash", "cueca-branca"...) e ops, "yes, did you like the concert?". Um bate-papo muito agradável, assim, a caminho das câmaras de gás.
...
A cueca número 2 foi na última sexta-feira, no show Che Sudaka (uma mistura de Manu Chao com Ratos do Porão) + A-Bones (A "banda-à-parte" do vocalista e guitarrista do Yo La Tengo, Ira Kaplan). Mas desta vez, pelo menos, a cueca era azul-marinho...




Quinta-feira, Novembro 05, 2009

aqui se vende na lojinha


... com anuncio no jornal :)

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

O hipopótamo que tinha alergia à mágica

(ou “Licenças aristotélicas para crianças”, ou ainda
“Roteiro para um comercial de sabão em pó”)

E se eu quiser escrever um livro, mamãe?
Primeiro faz um desenho bem bonito para contar sua história. Vai ser sobre o quê?
Sobre um hipopótamo que tem alergia à mágica.
Você viu isso onde?
Na internet.
Então não é sua história, alguém inventou primeiro.
Então não pode?
Ah, inventa uma sua, é mais legal...
Por quê não pode?
Não é que não pode, mas alguém já teve essa idéia primeiro, do hipopótamo com alergia.
Mas eu que vou escrever o livro.
Sim, mas pensa em outra coisa...uma girafa com medo de helicóptero, ou um tigre que espirra quando vê estrelas.
Mas se você já inventou eu não posso mais inventar a mesma história.
Então faz o hipopótamo, tudo bem.
Mas agora eu quero inventar uma história só minha.
Ótimo. E quando você escrever seu livro, todo mundo vai ler a sua história.
Mas aí alguém pode copiar e fazer um livro igual.
Não, porque você já vai ter escrito no livro.
E aí vai ser só minha a história?
Sua e de quem quiser comprar o livro e ler a história, ué.
Então eu não quero mais fazer o livro.
E você queria fazer o livro por que, então?
Para contar uma história.
Que história?
De um hipopótamo que tem alergia à mágica.
Então pega o lápis de cor e começa, rapazinho.
Mas primeiro eu tenho que fazer a história.
Faz desenhando, ué.
O hipopótamo pode ser de qualquer cor?
Pode.
Pode ser vermelho?
Não existe hipopótamo vermelho.
Mas existe tanta coisa vermelha...
Sim, mas hipopótamo vermelho não existe.
E azul?
Também não.
E roxo?
(...)
E hipopótamo que tem alergia à mágica, existe?
Não, mas na sua história pode existir.
E pode ser vermelho?
Pode.
Então no final sempre pode?
Se for sua a história, sim.
Mas o hipopótamo com alergia à mágica não é minha história.
Mas o hipopótamo vermelho é.

Então se eu mudar um pouco a história pode sempre ser minha?







Sábado, Outubro 31, 2009

Quem tem medo de Cidadão Instigado?


Esta semana eu estou flipando, como se diz por aqui, com Virginia Woolf e com o Cidadão Instigado. Em uma das aulas, “Modernismo Inglés”, revemos as primeiras décadas do século 20 na literatura inglesa, até 1930/40, mais ou menos. Flipando. Entender o que essa mocinha fez com tanta caraminhola na cabeça... ela era praticamente um Arnaldo Batista dos mil-e-novecentos, sem piano e com uma sociedade inteira no lugar da Rita Lee. Dessa vez leio os romances, as cartas e os diários ao mesmo tempo. Perceber como ela escolhia as palavras e as imagens, (nos romances e nas brigas em casa, inclusive), os instintos e as conexões que fazia. Difícil é ter em mente a Nicole Kidman em “As Horas” toda vez que eu penso nela, é como lembrar das aberturas das novelas do Manoel Carlos quando se ouve Wave, do Tom Jobim. Estragou, já era. E a Kidman nem tava mal não, mas pô...

Comecei com os contos (tem na internet o Monday or Tuesday traduzido para o português, curtíssimo, aqui); passei para O quarto próprio, e agora tô tentando levar o “Passeio ao farol” e “Mrs. Dalloway” – que inspira o filme As Horas – ao mesmo tempo. Um dos contos, “A mark on the wall”, é sobre, oras, uma marca na parede. Sentada no living room (que, na época, era um espaço na casa dos ricos para os velórios, por isso o nomezinho irônico), percebe uma marca na parede e começa a viajar no que seria aquela mancha. Em vez de levantar e ver de perto o que era, ela fala de mil coisas relacionadas ou não, como se a marca na parede fosse ela mesma, o mundo, e todas as palavras coubessem ali dentro. Como a gente doidão viajando na televisão desligada, por exemplo. Ah. Leiam, leiam, leiam. Outro, “Solid objects”, sobre um político, um senhor de meia-idade muito prestigiado que começa a desenvolver uma fixação por colecionar cacos de vidro e pedras. Fissurado pelos solid objects, larga tudo para sair catando por aí, uma Estamira de terno– e a coisa vai num crescente, uma fissura, que eu me pergunto quais são as pedras que estou colecionando na vida, e qual caco de vidro me faria largar uma vidinha nove-às-seis. Ah. O Monday or Tuesday, que eu linquei acima, é sobre uma garça (heron) que sobrevoa alguns fatos (não dá para explicar) e reflete sobre aquilo. Eu li primeiro “heron” como “heroe” e entendi tudo errado). Reli e veio a garça num rasante sobre a minha cabeça, e já li umas dez vezes, cada vez de um jeito, que viagem, Virginia rules (!) e eu flipo.

Enquanto leio, ouço o novo do Cidadão Instigado, “Uhuuuuuu!!”, numa viagem instantânea entre a Londres de Virginia e o Nordeste dos barbudinhos. Que álbum sabido. Acho que foram os mesmos extraterrestres de Virginia que assopraram por ali. Ouvi umas três vezes estranhando até comecar a repetir instintivamente – o que é aquela faixa de abertura (“A radiação na terra”)? Um susto semi-hippie, demi-sec, seguido por um coração aberto, meio brega, meio trilha de filme moderninho, “Como as luzes” – “eu vejo até as nuvens me levando para eu te encontrar/e o sol/te olhando viver” (essa combina com o conto Monday or Tuesday!).

Mais uma rapidinho: Deus é uma viagem.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

saudade

Sábado, Outubro 17, 2009

O cocô de 65 milhõs de libras


O principal problema público da pequena Saint Andrews, cidadezinha a 40 minutos da capital escocesa, Edimburgo, é o cocô de cachorro. Com manchete em jornal e tudo – “Sharp lessons for litterbugs”, em maio deste ano, no The Scotsman. Aliás, não só de Saint Andrews como de toda a Escócia. O país gasta anualmente mais de 65 milhões de libras para manter o país livre das surpresinhas nas calçadas. É dinheiro usado para fazer placas de aviso, comprar novas lixeiras, contratar mais funcionários de limpeza – leia-se imigrantes turcos, indianos e paquistaneses, na maioria – e desenvolver traquitanas que auxiliem a árdua tarefa de manter as vias transitáveis (tentei fotografar uma hilária, um mini-carro com duas supervassouras nas rodas e uma pazona acoplada, mas o motorista do cata-cocô ficou meio brabo).

A preocupação com os cocozinhos virou uma obsessão pequeno-escocesa: não há esquina da cidade em que você não seja obrigado a se lembrar deles, tantos são os alertas. A multa, de 500 libras para quem for pego “esquecendo” de limpar o (haja sinônimo pra cocô, alguém tem outro aí?) já foi paga por milhares de pessoas, principalmente em Glasgow – segundo a tal reportagem – onde os reincidentes ainda são obrigados a freqüentar aulas de educação ambiental.

O hábito de levar o Totó pra passear com uma pazinha e um jornal, tão custoso ao escocês (será que é difícil usar a pá e o kilt ao mesmo tempo?), no entanto, e surpreendentemente, é mais do que normal aos cariocas. E olha que só fui descobrir que no Rio de Janeiro também se paga multa pesquisando para este texto...

Uma amiga me convidou (!) para ser colunista de um site de viagens, o Passportout. Vou escrever sobre Escocia e Espanha, um texto por mes. Este foi o primeiro post sobre as terras altas. Agora que estou longe fica bem mais divertido.

(alguem me ensina a desvirar a foto?)

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Hebe recebe


Conheci a Lili Araújo em maio do ano passado, quando viajei pelo leste da Europa, até ali na beiradinha da Ucrânia. Eu estava num hostel sozinha em Budapeste, sexta-feira à noite... e, ufa, comecei a ouvir umas risadas ótimas na sala "para pegar amizade" que todo albergue tem. Eram cinco brasileiros, músicos, que moram e trabalham em Viena. Eles tinham um plano ótimo: todo mês, escolhiam uma cidade dos vôos low cost e passavam o fim de semana juntos. Com duas cervejas, já éramos melhores amigos. Infelizmente ainda não deu para visitá-los em Viena, e só voltei a ver a Lili no Rio em agosto, quando ela lançou o cd "Arribação", com temporada no Teatro Odisséia e Estrela da Lapa. E agora, que ela veio me visitar no meio da sua turnê pela Europa, entre um show em Lisboa e outro na Suíça...

O som de Lili: www.myspace.com/liliaraujo

E em Budapeste: